09
Aug
08

Desconexões invernais.

(ou A Bipolaridade de minha juventude)

O que há de verdadeiramente errado quando alguém é absoluta e totalmente feliz, eu vos pergunto. Nada, vocês hão de me responder. Isso se vocês forem minimamente normais, até para quem estuda em minha tão peculiar e pitoresca melting-pot escola.
Acontece que isso não é verdade. Não vou tão bem quanto gostaria na escola, não durmo tanto quanto deveria, não tenho o tempo de fazer tudo que preciso, não tenho o homem que quero, não quero os homens que tenho, nesse momento minha cabeça ainda parece prestes a explodir depois de três horas e muita cafeína. Ainda assim, nunca estive tão feliz.
Os dois pilares que passei minha vida tentando projetar e construir, agora estão parcialmente prontos e tão perto de poderem agüentar os pesos insuportáveis de minha consciência, pude enfim largar o mundo que levava nas costas e pude provar da liberdade que Atlas nunca teve a possibilidade de usufruir. Minha vida toda, me auto-flagelei com dois sonhos que sempre julguei impossíveis e agora estão à la portée de la main, tenho um ‘livro’ pronto e um livro de fato em processo de criação, e aquele outro mais inalcançável ainda, eu alcancei, já havia alcançado há tantos e tantos anos e nunca tinha percebido.
A verdade é que minha vida toda me imaginei fazendo uma só coisa, numa única carreira, sem jamais perceber que era aquilo que eu deveria fazer, que não eram apenas divagações. Em meados da 5ème, depois de doze anos tentando achar algo que ‘coubesse’, que me ‘caísse bem’, que me fizesse sentir confortável, eu me dei conta de que nada do que havia considerado era certo, porque a resposta correta estivera sempre ali, no meu nariz dançando samba com uma roupa de carnaval e um chapéu rosa de penas, tentando chamar minha atenção. Eu serei professora. Essa é a verdade. Porque depois que tomei essa decisão, nunca mais senti o aperto na barriga da incerteza. Digo com toda a sinceridade que foi a primeira decisão de minha vida da qual eu não me arrependi, a primeira de muitas, a estréia de minha maturidade.
Porque naquela época, e ainda um pouco depois, eu não era ninguém. Eu era as máscaras que vestia, porque ainda estava na idade de experimentar, de decidir, e a minha incapacidade de conseguir começar a ser alguém me deprimia, me rebaixava, me humilhava a minha não-existência. Eu sou alguém agora. Eu sou eu.
E mesmo sabendo que preciso de uma bolsa de excelência para estudar na França e fugir do palco da minha juventude multi-facetada de que tenho tanta vergonha, continuo numa certa preguiça, e apesar de ter declarado guerra à minha própria cara-de-pau, ainda me sinto um tanto fracassada e tenho medo de ser um fracasso total e ter que viver a vida toda sob a sombra de minha ex-não-existência, ser quem eu nunca fui aos olhos de quem me viu crescer e mudar, pessoas que acham que quem eu sou hoje é uma farça quando na verdade é e sempre foi eu na minha mais total franqueza de ser.
Mas tanto peso retirado das minhas costas me faz me sentir como se estivesse flutuando, e eu gostaria de poder voltar um pouco à realidade para poder voar de verdade quando não tivesse nada me esperando no chão, para sair voando de mais pura felicidade sem preocupações terrestres, num céu de inverno como o de hoje, no auge da mais insustentável leveza do ser.


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